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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A linguagem dos marginalizados: literatura Brasil/Angola


A linguagem dos marginalizados nos contos de João Antonio e Luandino Vieira

                                                             Fátima Pereira


Brasil e Angola têm em comum, além da língua, afinidades etnoraciais, sociais, culturais e conexões históricas. No início do século XX, o Brasil, nação livre e independente, se despontava como uma importante força econômica e política, com uma sociedade racial e socialmente híbrida, despertando o interesse das colônias portuguesas na África.  Para aqueles que desejavam uma ruptura com a metrópole, o Brasil era fonte de inspiração, e nesse aspecto a literatura é de fundamental importância. Escritores brasileiros, principalmente os regionalistas, eram lidos e admirados pelos jovens intelectuais angolanos. A questão da identidade, levantada  pelos modernistas brasileiros, é  uma questão importante para a vanguarda de escritores angolanos, sendo assim,  diálogo no campo literário também foi estendido ao campo político.Muitos escritores angolanos falam da influencia de escritores brasileiros: Luandino declara a relevância da obra de João Guimarães Rosa na sua trajetória de escritor (CHAVES: 1999).

Nos anos 60,  os escritores acham a sua maior expressão no meio urbano e suburbano. As cidades crescem. Todos os dias chegam pessoas do interior em busca de melhores condições de vida, iludidos pelo progresso das grandes cidades. A maioria viverá à margem da sociedade, ocupando bairros proletários, musseques ou favelas,  fora do perímetro de urbanização. A busca pela sobrevivência não é uma tarefa fácil. No jogo da vida, a malandragem e a esperteza é vital para continuar jogando. Luanda ou São Paulo, cenários diferentes com histórias parecidas: a busca da sobrevivência em uma realidade adversa, com sua linguagem própria.

Estória do  ladrão e papagaio, do escritor angolano José Luandino Vieira, e Malagueta, Perus e Bacanaço, do escritor brasileiro João Antonio, têm muito em comum, a começar pelas personagens marginalizadas, buscando um modo de sobreviver em meio ao desalento de cidade grande e um discurso narrativo utilizando uma linguagem mesclada.


Malagueta, Perus e Bacanaço, primeiro texto publicado de João Antonio foi publicado em 1963,  narra a  aventura de três malandros em suas andanças pela madrugada paulista. A cidade serve de pano de fundo e é um personagem que interage com o destino das personagens. Perus é um rapaz romântico, dezenove anos, engraxate, morava com a tia em Perus, daí o apelido; Bacanaço, um homem de meia-idade, jogador maduro e ladino, cínico, um verdadeiro profissional da malandragem, admirado pelo rapaz, pois mundo da malandragem, impressiona quem manda mais; Malagueta, um velho já descrente da vida, um pé-de-chinelo. O modo de vida que escolheram é a sinuca. Unidos na mesma miséria, que é a miséria de não possuírem dinheiro, mas é também a do jogo. E como viradores, juntos, viram-se com as armas que possuem. O autor conhece bem essa realidade, como deixa claro no prefácio do livro.

  A construção da narrativa é feita de modo cada parte seja independente: a subdivisão interna da narrativa percorre os bairros paulistanos: Lapa, Água Branca, Barra Funda, Cidade, Pinheiros, Lapa. Cada subdivisão constitui uma unidade fechada. A continuidade da narrativa é uma espécie de colagem. São as personagens que dão unidade à narrativa.  Os três malandros  percorrem os muquinfos, botecos fecha-nunca, salões de sinuca, lugares freqüentados por malandros e prostitutas. Virariam a cidade tentando arranjar dinheiro. Tentam a sorte no jogo, ou melhor, tentam ganhar dinheiro de otários. É a luta pela sobrevivência. Afinal eles não, têm a vida ganha como os bacanas, aqueles da classe média, bem arrumados e alimentados. Os malandros, os merdunchos, como o autor os denomina, vivem sempre na situação de risco e têm uma lutam arduamente para sobreviver, embora tentem ganhar dinheiro “na moleza”.

A descrição é uma técnica bastante usada pelo autor, como exemplifica esse trecho:

A rua suja e pequena. Para os lados do mercado e à beira dos trilhos do trem - porteira fechada, profusão de barulhos, confusão, gente. Bondes ramgiam nos trilhos, catando ou depositando gente empurrada e empurrando-se no ponto inicial. Fechado o sinal da porteira, continua fechado. É pressa, as buzinas comenm o ar com precipitação, exigem passagem. Pressa, que gente deixou os trbalhos, homens de gravata ou homens de fábricas. Bicicleta, motoneta, caminhão, apertando-se na rua. Para a cidade ou para as vilas, gente que vem ou que vai.

A narração em terceira pessoa adere ao personagem, mostrando o mundo que a personagem vê. O narrador concentra-se no mundo interior da personagem, com a qual se identifica, empregando o estilo indireto livre. Assim, narrador e personagem se confundem.

Outra característica desse conto é a presença da oralidade. João Antonio é o mestre da palavra, misturando a gíria, linguagem típica dos malandros, com seus jeitos e  códigos com o português-padrão, produz um texto com um ritmo, a sonoridade produzindo  a linguagem oral.

Ao ler Malagueta, Perus e Bacanaço, é preciso lembrar que os tempos eram outros. A malandragem era diferente do que conhecemos hoje, menos violenta e talvez fosse  até romântica. João Antonio apresenta os desassistidos, os excluídos, os que vivem à margem da sociedade capitalista.  O conto não deixa de ser uma crítica social:

Eram três vagabundos, viradores, sem eira, nem beira. Sofredores. Se gramassem atrás de dinheiro, indo e vindo e rebolando, se enfrentassem o fogo do joguinho, se evoluíssem malandragens, se encarassem a polícia e a abastecessem,  se atilassem teriam o de comer e o de vestir no dia seguinte; se dessem azar, se tropicassem nas virações, ninguém lhes daria a mínima colher de chá – curtissem sono e fome e cadeia.

Os três malandros percorrem o trajeto comprido da noite e da madrugada, jogando, ganhando, perdendo. Terminam murchos, sonados, pedindo três cafés fiados.



Em Estória do ladrão e papagaio, DosReis é preso com um saco cheio de patos. Na prisão, entrega Garrido, que é preso por roubar o papagaio Jacó. Mas é na fala de Xico Futa que se desenvolve a ação discursiva do conto. É a figura do cajueiro. A árvore  - símbolo universal de unidade, regeneração, auto-realização e crescimento orgânico -  é uma árvore de importância nacional, símbolo da MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), que indica a resistência, ainda que no meio da destruição.

Xico Futa termina seu ensinamento:

...É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem fugir  sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr  sempre muito já na frente, fazendo nascer  mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio se escolhe: costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas.

Tudo isso para o narrador falar da raiz da prisão de Garrido – o papagaio Jacó.

Nessa narrativa, mais importante do que o enredo é a forma. A voz narrativa é em uma linguagem que foge aos padrões, embora em língua portuguesa, a linguagem simula a fala dos moradores dos musseques, o pequeno português ou o pretoguês, como se diz  popularmente.

Na obra de Luandino Vieira, Luanda é quase uma personagem. O espaço das estórias é o dos musseques, bairros periféricos, sem infra-estrutura, onde vivem aqueles à margem da sociedade, os desfavorecidos e discriminados. Filho de colonos humildes, Luandino foi criado em bairros populares, convivendo e participando da vida dos musseques e da zona suburbana. Apesar de ser português, Luandino Vieira é um dos maiores expoentes da literatura angolana. Ativista político, foi membro do MPLA e  esteve  preso  por atividades anticolonialistas. Seu livro de contos de 1964, Luuanda (ortografia arcaica), foi escrito na prisão. Livro premiado, é um novo marco na  literatura angolana, numa época de perseguição política.

 Nessa estória, assim como nas outras duas de Luuanda (o autor prefere chamar de estórias, em vez de contos, fazendo uma alusão a Guimarães Rosa), retrata o bilingüismo da capital Luanda, onde o português, língua oficial, convive com o quimbundo, a língua do cotidiano. A mensagem de Luandino ultrapassa os limites geográficos e lingüísticos. Ao terminar a estória deixando o leitor julgar se a estória é bonita ou feia, faz com esse leitor decida se os casos fazem parte de algo maior, ajustando o regional e bairrista (musseque, Luanda) ao nacional (Angola).



Considerações finais

João Antonio e Luandino Vieira rompem com o modelo ideológico quanto ao padrão lingüístico do português.  A nova linguagem se faz necessária para dar sentido a uma nova forma de ver o mundo, de quem o vê de baixo para cima seja a  linguagem dos malandros se arrastando na noite de São Paulo, ou dos moradores dos musseques luandenses, que sugere que há um texto em quimbundo, que não entendemos, mas que faz parte do discurso.                



Bibliografia:

ANTONIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaços. Rio de Janeiro: Record, 1970

CHAVES, Rita. “Imagens da utopia: o Brasil e as literaturas africanas de língua portuguesa”. In Ipotesi, n. 4. Revista da Universidade Federal de Juiz de Fora, 1999.

LEÃO, Ângela Vaz. (org.) Contatos e ressonâncias – Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Belo Horizonte: Puc-MG, 2003

LUANDINO VIEIRA, José. Luuanda – estórias. 6a. ed. Lisboa: Edições 70, s/d

SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias africanas: história e antologia.São Paulo: Ática, 1985.

SCHUARZ, Roberto. (org.) Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.














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