O conto de Ignácio de Loyola Brandão, além da sugestão de interpretação que segue após o texto, é muito interessante para se trabalhar a narrativa fantástica, os elementos da narrativa e os recursos utilizados para prender a atenção do leitor. Professores que queiram conferir o gabarito, basta enviar email, ou pedir nos comentários, mas por favor, deixem seus emails para respostas, mesmo se tiver Google +.
O
homem cuja orelha cresceu
Estava escrevendo, sentiu a orelha
pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra.
Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco,
reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas
cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles,
como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e
continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura.
Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia
cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das
moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para
a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um
amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário
não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos.
Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na
cabeça, como se estivesse machucado.
