Atenção

Para compartilhar as atividades do Blog TEXTO EM MOVIMENTO em outros blogs é preciso ter autorização prévia. Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

domingo, 25 de outubro de 2015

O suor e a lágrima - Interpretação de texto (crônica) 8º/9º ano


Mais uma crônica para interpretação. É importante que o aluno perceba que trata-se de uma crônica,  parte de um acontecimento comum, é narrado em 1ª pessoa...

O suor e a lágrima

Fazia calor no Rio, quarenta graus e qualquer coisa, quase quarenta e um. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o dia mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.
      O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meu sapato, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rossetti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo o instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
                E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho, à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar no resto dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano salgado como lágrimas.

                                                                                                Carlos Heitor Cony

Atividades

1.Esse texto pertence ao gênero:    (   ) conto          (   ) crônica
Justifique.

2. O narrador parte de um acontecimento comum,  que o faz refletir. Assinale a opção que expressa o acontecimento que o leva a essa reflexão.
(   ) O suor do engraxate do aeroporto Santos Dumont, misturando-se à graxa.
(   ) O forte calor que fazia no Rio de Janeiro levava as pessoas a suar.
(   ) O atraso da aeronave onde o narrador viajaria.
(   ) O uso, pelo narrador, de um sapato caro, que foi reconhecido como tal pelo engraxate.

3.Por que o narrador teve vergonha do brilho dos seus sapatos?

4.No título do texto, os termos — suor e lágrima —podem ser interpretados, respectivamente, como:
(   ) o fluido destilado pelos poros da pele; a secreção produzida pelas glândulas lacrimais.
(   ) a tristeza; o trabalho duro.
(   ) o trabalho forçado; o desejo de vingança.
(   ) a exploração do outro; a culpa, o remorso.

5. A descrição, feita pelo narrador, da cadeira em que se sentou para engraxar o sapato sugere que o móvel:
(   ) era velho e estragado; seu estado podia indicar a pobreza do engraxate.
(   ) era muito antigo, uma relíquia de antiguidade.
(   ) tinha várias funções. Atendia a muitas necessidades.
(   ) era velho, já meio estragado, no entanto muito confortável.

6. a)Qual a diferença entre desolado e desolante (2º parágrafo)?
    b) Ao falar de suor e pão, o texto lembra uma frase famosa retirada da bíblia. Qual?

7. O narrador chama o engraxate de “filho do povo”, o que ele quis dizer com essa expressão?

8. O fato dos sapatos serem de cromo italiano exerce alguma importância na crônica?

9. Indique se as afirmativas abaixo são verdadeiras  (V) ou falsas (F).
(   ) Com o troco generoso deixado para o engraxate, o narrador quis disfarçar um preconceito que o dominava naquele momento.
(   ) A culpa que o narrador experimenta é tão grande que extrapola aquele incidente pequeno da limpeza do sapato.
(   ) O espanto do engraxate ao receber a gorjeta mostra que os fregueses habituais não eram tão generosos.
(   ) O dinheiro estava para o sentimento de culpa do cronista assim como os votos de felicidade estavam para o sentimento de gratidão que o engraxate experimentava.
(   ) A única coisa que chateava o narrador era o calor escaldante.


10. Justifique o título do texto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário